A realidade das mulheres no mercado de trabalho e o histórico da luta por direitos estiveram no centro da conferência realizada em Campo Mourão, região noroeste do Paraná, nesta sexta-feira (24). Organizada pelo Senge e Coletivo de Mulheres e Senge Jovem, o evento reuniu mais de 70 pessoas no auditório do Sindicato de Servidores Municipais (Sindiscam).

Tayná Silva, integrante do Senge Jovem da regional de Londrina, abriu o encontro lançando o convite para que estudantes e engenheiras já formadas façam parte do Coletivo de Mulheres do sindical, para que assim seja possível avançar em questão ainda presentes no cotidiano, como assédio moral e sexual. “São situações que não devem ser deixados nos bastidores, e sim devem ser trazidas para o debate mais amplo e crítico”.

“Esperamos que esse seja um momento em que nós, mulheres, possamos refletir e se sentir estimuladas a ocupar o nosso espaço. Pois se a gente não ocupar, não vamos avançar”, propôs Losani Perotti, diretora adjunta da regional do Senge-PR em Campo Mourão.

A conferência teve palestra de Rosane Pereira Scapin, engenheira agrônoma e agente de fiscalização do CREA-PR, Simone Baía Pereira Gomes, engenheira química e Diretoria da Mulher da Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), e Miria Maria Peres, advogada e professora do curso de direito da Faculdade Integrado de Campo Mourão.

Mulheres mobilizadas

“Não há registro da presença e da participação das mulheres. A igualdade era defendida, mas não era praticada”, garante Simone Baía Pereira Gomes, engenheira química e Diretoria da Mulher da Fisenge, ao se referir à história do movimento sindical.

Esta invisibilidade, de acordo com a engenheira, é incompatível com a ativa participação feminina nos movimentos, na busca por melhores condições de trabalho, por melhores salários, pela redução da jornada, pela proibição do trabalho infantil, entre outras pautas. “Mas a história do movimento sindical é registrada pelas lideranças dos movimentos, que em geral eram homens. A história e a participação das mulheres foi esquecida, apagada”, lamenta.

A conquista do espaço pelas mulheres nas entidades de classe avançou na década de 1980, mas não sem tensionamentos. “Não foi natural, pois existem as relações de poder. Não existe a cessão de espaço para as mulheres, existe a luta pelo espaço”, afirmou a sindicalista, que é a primeira diretora da Mulher da Fisenge.

O caminho para a criação do Coletivo de Mulheres da Fisenge é exemplo dessa luta pela conquista de espaço. A primeira ação organizada das engenheiras foi em 2005, durante o 7º Consenge, na Bahia. “O que essas mulheres queriam? Um coisa muito simples: um espaço para a discussão da questão da mulher”. Não conseguiram. A conquista veio três anos depois, no Congresso seguinte, quando as engenheiras exigiram a criação da Diretoria da Mulher.

De lá para cá, o Coletivo de Mulheres tomou forma e ganhou força. Somado à defesa dos direitos, Simone frisa a perspectiva humanista do feminismo, que também atua pela superação das demais desigualdades e injustiças intrínsecas da sociedade capitalista e machista. “A gente não trata só das questões de gênero, de maneira segregada. A gente tem que pensar na melhoria da sociedade e do mundo em que vivemos”.

Desigualdade

Para exemplificar a disparidade entre o acesso aos cursos de engenharia por homens e mulheres, Rosane Pereira Scapin, engenheira agrônoma e agente de fiscalização do CREA-PR, resgatou dados de 1950. Naquele ano, o CREA-PR tinha o registro de 512 engenheiros e de apenas 4 mulheres. Já em 2010, o número passou de 24.130 homens e 546 mulheres.

A diferença salarial entre os gênero no mundo da engenharia repete o que ocorre em outras categorias. De acordo com dados do CREA de 2011 a 2016, as engenheiras recebem em média 10% a menos do que os engenheiros.

Neste quesito, há diferenças entre as subcategorias: na engenharia civil, por exemplo, as mulheres recebem 7,5% a menos; na elétrica e na química a diferença fica em 10%; na mecânica chega a 12%; a geologia é a área com menos desigualdade: 3,7%; já na agronomia, a diferença salarial entre homens e mulheres é em média de 19%.

“A gente quer é uma sociedade igualitária, em que a gente ganhe os mesmos salários, que tenhamos as mesmas condições”, defende a engenheira.

“O mesmo cálculo que eu estudei é o que o homem estudou, a mesma física, química, os processos, os fenômenos. Porque eu que tenho diferença salarial se eu aprendi a mesma coisa?”, questiona Simone Baía.

Diante das estatísticas que comprovam a diferença salarial e a menor inserção das mulheres nos cargos de poder, Miria Maria Peres, advogada e professora universitária, reafirmou o predomínio de uma cultura de discriminação com a mulheres: “Nós temos mais anos de estudos que os homens, e assim mesmo recebemos menos. Em 500 empresas grandes no brasil, somente 14% são comandadas por mulheres”.

Como décadas de atuação na advocacia trabalhista, ela relata casos em que as trabalhadoras perderam o emprego ou foram pressionadas por conta da maternidade: “Muitas demissões logo depois que a mulher volta da licença maternidade. Tem empresas que, por debaixo do pano, pergunta para as mulheres se elas têm laqueadura”. Para a advogada, o avanço da terceirização irrestrita afetará de maneira ainda mais cruel as mulheres, que já ocupam trabalhos mais precarizados e com menor remuneração.

>> Para ver o álbum de fotos do evento, acesse: http://migre.me/wksJY

>> Acesse aqui os vídeos com a íntegra das palestras:

PARTE 1 AQUI

PARTE 2 AQUI

Fonte: Senge-PR

Publicado em Notícias

No mês dedicado à luta das mulheres, o Sindicato dos Engenheiros da Bahia promove a palestra “A mulher e o mercado de trabalho frente às reformas trabalhista e da previdência” com a Supervisora técnica regional do DIEESE ( Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), no dia 20 de março, às 19h, na sede do Senge-BA.

As reformas em pauta no Congresso brasileiro atinge a toda classe trabalhadora, mas os setores historicamente discriminados no sistema social – mulheres, negros, população lgbt, do campo, que já são a maioria da população pobre – tendem a ser muito mais afetados nessa conjuntura política e social.

O DIEESE , junto a outras entidades como a Anfip, tem se manifestado publicamente contrário às reformas, dando grande contribuição à luta para barrar a reforma da previdência. Recentemente, as duas entidades lançaram o estudo Previdência: Reformar para Excluir?, organizado por um grupo de quase 50 especialistas sobre a proposta da reforma da previdência e as falácias propagadas pelos defensores da proposta. O estudo contesta, por exemplo, a ideia utilizada pelo Planalto de que a Previdência seria deficitária.

Fonte: Senge Bahia

 

Publicado em Notícias

Durante o encontro, também foi realizada uma homenagem para a engenheira e funcionária do SENGE-RJ Elsa Parreira, que lutou contra a Ditadura Militar.

 

Na noite desta quinta-feira (09), foi realizada no SENGE-RJ uma emocionante homenagem às mulheres que lutaram contra a Ditadura Militar e pela Anistia. Entre elas, estava Elsa Parreira, engenheira e funcionária do Sindicato, que faleceu no dia 21 de janeiro de 2017.

A diretora do SENGE-RJ Virgínia Bradão contou como teve a ideia de realizar esse evento.

"É a nossa maneira de celebrar o Dia Internacional da Mulher e também relembrar a luta histórica das mulheres, entre elas a Elsa. Foi uma maneira de unir as duas coisas", disse Virgínia.

O evento contou com a presença de Ana Müller, advogada de familiares de mortos e desaparecidos e fundadora do Comitê Brasileiro pela Anistia no Rio de Janeiro. Ana contou que Elsa tinha uma "forte capacidade de agregar".

"A Elsa sempre foi uma pessoa absolutamente comprometida com as lutas políticas e as demandas sociais com liberdade com as questões sociais. Não se limitou apenas as nossas reuniões ou atos. Foi além. A igreja no rio era muito atrasada. Buscamos um padre ou bispo que fosse mais aberto para podermos fazer nossas reuniões e um bispo de Nova Iguaçu abriu as portas e a Elsa proferiu palestras nesse centro de direitos humanos em Nova Iguaçu."

O presidente do SENGE-RJ, Olímpio Alves dos Santos, destacou ainda que são as lembranças boas que permanecem.

"Nós não a perdemos temos ela cada dia mais perto em nossas vida, em nossa memória", afirmou.

Para o deputado estadual Eliomar Coelho, que é engenheiro, Elsa fez parte permanente do grupo de engenheiros que lutou pela democracia e tinha uma forte relação com a história do Sindicato dos Engenheiros. Ele afirmou ainda que "Elsa era uma pessoa gueireira, combativa e firme nas suas posições, mas também doce e alegre."

Mulheres corajosas

Ao contar a história de luta pela Anistia, a advogada destacou ainda a coragem dessas mulheres. Segunda ela, muitas já eram senhoras, mães de jovens presos políticos.
"Fizemos um ato no Itamaraty porque não davam passaporte para crianças que nasceram no exílio. Fomos seis pessoas com uma faixa e isso deu repercussão. Não tinha nenhum homem lá e era do lado do ministério do exército", contou Ana. "Todas as mulheres que lutaram, que foram para as prisões, devemos levantar as taças e agradecer a todas elas", afirmou a advogada, emocionada.

A diretora da mulher da Fisenge, Simone Baía, ressaltou que é um grande prazer ver o auditório tomado de mulheres e homens para celebrar a história de resistência das mulheres e falar de uma mulher que foi um exemplo com sua luta.
" A luta das mulheres não é só das mulheres. É de toda a sociedade porque visa um mundo melhor", afirmou Simone.

Publicado em Notícias

Segundo a Constituição, a prestação dos serviços deve seguir o ideal de justiça social e visar a redução da desigualdade

Está em curso no Congresso Nacional uma série de medidas que modificam os direitos historicamente conquistados pelos trabalhadores brasileiros. Sob os argumentos da solidez financeira do Estado, do equilíbrio fiscal, da “modernização” da legislação trabalhista e previdenciária, entre outras justificativas, o governo de Michel Temer tem avançado sobre as principais conquistas sociais dos trabalhadores, com medidas como o congelamento de gastos por 20 anos, o caminhar avançado da aprovação da terceirização irrestrita, a prevalência do negociado sobre o legislado e outras tantas pautas que tencionam a relação capital-trabalho, cada vez mais em função do primeiro.

O tema da vez é a Reforma da Previdência, apresentada por meio da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 287. Nesse texto, procuraremos apresentar alguns elementos que devem contribuir com o debate, em especial desconstruir os argumentos que sustentam não haver necessidade de diferenciação entre homens e mulheres, presentes na PEC, e apresentar o impacto da reforma sobre algumas categorias específicas, mostrando como a Reforma da Previdência tem impacto diferenciado para homens e mulheres.

A diferença de tratamento para a concessão da aposentadoria entre homens e mulheres se baseia nos princípios de seletividade e distributividade previstos no artigo 194, inciso III da Constituição Federal de 1988. Isso significa que a prestação dos serviços deve ser feita de acordo com as possibilidades econômico-financeiras dos segurados, seguindo o ideal de justiça social e visando à redução da desigualdade social.

As diferenças entre homens e mulheres no mercado de trabalho, embora tenham se modificado ao longo dos anos, estão longe de chegarem ao nível de igualdade, conforme argumento apresentado na redação da PEC 287, já que as mudanças ocorreram de maneira parcial e seletiva.

Há entendimentos de que os problemas do mercado de trabalho devem ser resolvidos por meio de políticas laborais, e não previdenciárias, supondo que a Previdência não teria uma vinculação direta com a discriminação de gênero. Equívoco. As análises de mercado de trabalho não devem se separar da esfera da família (reprodução), do Estado e do mercado uma vez que estão intimamente entrelaçados e são dependentes.

O caráter contributivo da Previdência impõe uma fonte de renda e, portanto, a dependência do trabalho remunerado. Por tudo isso, a Previdência Social não pode negligenciar o fato de que as mulheres trabalham mais que os homens, embora parte desse tempo não seja remunerado. Segundo dados da PNAD 2014, as mulheres trabalham em média 20 horas semanais nas atividades reprodutivas, além da jornada extra doméstica. A diferenciação na idade de aposentadoria, que hoje é 55 anos para elas e 60 anos para eles, busca amortecer essa desigualdade de gênero que ocorre no trabalho dentro e fora de casa.

As diferenças de gênero no mercado de trabalho brasileiro são estruturais, o que se verifica, entre outros indicadores, pela diferença na taxa de participação no mercado de trabalho. Em conformidade com o argumento apresentado pela PEC 287, a taxa de participação feminina apresentou crescimento nos últimos 55 anos, passando de 16,5% nos anos 1960 para 54,4% em 2015. No entanto, ela desacelerou a partir da década de 1990, sendo acompanhada por altos níveis de desemprego, informalidade e volatilidade, que se aprofundam conforme a região e grupos raciais.

A exemplo disso, na década de 1990, marcada pela abertura econômica, privatizações e reestruturação produtiva, a taxa de desemprego masculina passou de 2,2% para 6,5%, já os índices femininos aumentaram de 2,9% para 8%, e esse é um comportamento regular na economia, demonstrando que o trabalho não capitalista (ou seja, o da esfera doméstica) está armazenado como uma reserva necessária ao sistema capitalista em seus momentos de expansão. A existência dessa reserva parece estratégica para que a exploração do trabalho consiga manter a sua lógica de funcionamento.

Além disso, a maior presença feminina no mercado de trabalho não foi acompanhada por melhores níveis de rendimento, o que determina o caráter subordinado do emprego feminino ao masculino e a baixa autonomia econômica das mulheres.

No mercado de trabalho formal brasileiro, as mulheres recebem em média 18,9% a menos que os homens, com mesma carga horária de trabalho, mesmo sendo, em média, mais escolarizadas. Se incluído o mercado informal, as diferenças se agravam, sendo de 30% a menos e, dependendo da região brasileira, essa diferença chega a 41%, caso do Sul do Brasil.

Registra-se que o retorno do investimento em educação é diferenciado para elas, uma vez que uma mulher com ensino superior ganha 55,8% (RAIS, 2015) a menos que o homem com a mesma escolaridade. Tais diferenças são influenciadas por outros fatores, como a segmentação e a segregação do mercado de trabalho.

Além da proposta de equiparar as idades de aposentadoria entre homens e mulheres e trabalhadores rurais e urbanos, ignorando realidades deveras distintas, a PEC 287 incorre ainda em outras mudanças que atingem as mulheres sobremaneira. A primeira delas é a mudança no cálculo para recebimento do valor pecuniário. Atualmente, os trabalhadores, para se aposentarem, precisam de 150 contribuições e esse número passará para 300 contribuições, o que equivale a 25 anos de contribuição. O cálculo do benefício (que hoje é 80% dos maiores salários) se modificará para o equivalente a 51% do salário de contribuição, acrescidos de 1% a cada ano de contribuição.

Esses dois elementos em uma economia de baixos salários com um mercado de trabalho com significativa heterogeneidade estrutural não são triviais. As mulheres atualmente já se aposentam em grande parte por idade, pelas características do trabalho feminino, marcado por informalidade, descontinuidade (maternidade, cuidados de idosos) e maior exposição ao desemprego. Essas mudanças servem para rebaixar o valor das contribuições, uma vez que para se aposentar com a integralidade do benefício o trabalhador teria que começar aos 16 anos e não ter descontinuidades no mercado formal. Apenas 49% dos trabalhadores conseguiram fazer as 12 contribuições mensais ao longo de 2014.

Outras três categorias serão mais fortemente afetadas, e não por coincidência têm grande expressividade feminina. A primeira delas são as trabalhadoras rurais, que começam a labuta desde muito jovens e, não raras vezes, não são reconhecidas como trabalhadoras, por lidarem especialmente com o trabalho reprodutivo e com a horta e animais pequenos.

Essas trabalhadoras terão, se aprovada a PEC, que contribuir como os demais trabalhadores, extinguido a aposentadoria especial do campo. A segunda categoria são os professores da educação básica, que hoje se aposentam com 10 anos a menos de contribuição por entendimento que esse trabalho é extremamente desgastante física e psicologicamente. Esse regime acabará, afetando a categoria que é cerca de 80% feminina. Além disso, note-se a perversidade que impõe a própria regra de transição: para uma professora da educação básica que completaria 25 anos de contribuição em atividades de magistério aos 50 anos, a idade mínima também passa para 65 anos; e, se ela tiver 44 anos na eventual promulgação da emenda (portanto excluída da regra de transição), em vez de trabalhar e contribuir por mais 6 anos, terá que fazê-lo por mais 21 anos.

Por fim, as trabalhadoras domésticas, ocupação que absorve 6 milhões de mulheres e 15% da mão de obra feminina, a qual historicamente padece sob a informalidade, portanto com dificuldades de contribuição previdenciária, e baixos salários. Além disso, a categoria tem em torno de 65% de mulheres negras, que são as que ocupam as vagas mais precárias no mercado de trabalho.

Essa é a face sexuada da Reforma da Previdência, que atinge negativamente o conjunto dos trabalhadores brasileiros, mas que atinge de forma diferenciada e com mais afinco as mulheres, especialmente as negras. Pelos motivos expostos, as mulheres mais uma vez têm se mostrado ponta de lança na resistência às reformas, mostrando sua disposição coletiva de avançar ainda mais rumo à igualdade, e não retroceder, como certamente ocorrerá com a aprovação da PEC.

Temer sai, Previdência fica!

Fonte: Brasil de Fato

 

Publicado em Notícias

Para a vereadora, as mulheres precisam lembrar a todo tempo que estão em condição subalternizada, não só simbolicamente.

A vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (Psol) teve uma das eleições mais comemoradas dos últimos tempos na cidade. Mulher, negra, nascida, criada no Complexo da Maré, defensora dos direitos humanos e socióloga, ela foi a quinta candidata à Câmara dos Vereadores mais votada em 2016, acumulando 46 mil eleitores. Após a posse, em janeiro deste ano, Marielle já apresenta projetos que visam fortalecer os direitos das mulheres. Um deles é o projeto de lei “Pra fazer valer o Aborto Legal”, que tem por objetivo qualificar profissionais para informar e garantir atendimento de mulheres que tem direito de abortar, em casos de anencefalia, risco de morte e estupro. Na Semana Internacional da Mulher, Marielle conversou com o Brasil de Fato sobre a necessidade de debater feminismo e algumas propostas de seu mandato.

Brasil de Fato: Por que ainda é importante discutir o feminismo hoje?

Marielle: Para garantir que as mulheres não estejam em posições secundárias. Para evitar o status que muitos querem nos colocar de invisibilidade. Para que nós possamos ocupar espaços em que sejamos protagonistas. No dia 08 de março, é importante ir para as ruas, tornar público nosso discurso, porque à medida em que têm mulheres fazendo a fala, o debate sobre feminismo, gênero, racismo está em jogo e faz a diferença.

Recentemente você relatou em sua página do Facebook o caso de racismo que sofreu no aeroporto com uma revista abusiva. Como é ser mulher negra no Brasil?

Ser mulher negra é resistir e sobreviver o tempo todo. As pessoas olham para os nossos corpos nos diminuindo, investigam se debaixo do turbante tem droga ou piolho, negam a nossa existência. Isso que passei no aeroporto foi uma vivência que muitas mulheres negras já passaram. Poderíamos fazer uma pesquisa objetiva perguntando quantos mulheres e homens brancos já tiveram os seus cabelos revistados, a resposta seria nenhum. Estamos expostos e somos violentados todos os dias. Para que a discussão se amplie é fundamental compreender que estamos em um lugar de tratamento diferente. É preciso reconhecer o racismo.

As mulheres trabalham em média 7,5 horas a mais que os homens por semana, segundo pesquisa divulgada essa semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ainda assim a reforma da Previdência propõe que trabalhem a mesma quantidade de anos para aposentar. Como avalia essa proposta?

Como querem tratar as mulheres de maneira igual para aposentar se já somos tratadas de maneira desigual todos os dias? Nós, mulheres, estamos na base da pirâmide, com os menores salários, trabalhando em jornadas duplas e ainda querem tratar a gente de maneira igual para a aposentadoria. É um discurso de igualdade só quando serve aos interesses deles. Temos que lembrar que estamos em condição subalternizada, não só pelo simbólico. Os dados objetivos das pesquisas estão mostrando isso. Infelizmente as mulheres ainda estão em situação vulnerável.

Na Semana Internacional da Mulher, em que você teve várias atividades de conversa sobre feminismo nas ruas do Rio de Janeiro, como tem sido a receptividade dessas conversas?

Fizemos panfletagens, aula públicas e conversas. Na maioria das vezes tivemos adesão boa, mas sempre tem nível de resistência, infelizmente. Acho que, de modo geral, as pessoas estão muito receosas sobre a política mais ampliada. Então há uma negação aos panfletos pelo partido e posições políticas. Mas, sobre a pauta do feminismo, quando falamos da retirada de direitos sobre a vida das mulheres, há uma identificação. Se pararmos para pensar, quem mais sofre com a reforma da Previdência, por exemplo? São as mulheres mais pobres, que mais estão fazendo trabalhos terceirizados e braçais. Então, quando conversamos sobre isso, são temas que as mulheres param e prestam atenção. Conseguimos dialogar.

Como funciona na prática o projeto de lei proposto por você na Câmara Municipal “Pra fazer valer o Aborto Legal”?

É um programa que traz um tema polêmico, mas não estamos defendendo no âmbito municipal a legalização do aborto, apesar de essa ser uma pauta do Psol nacionalmente. O que estamos propondo aqui é a garantia do serviço públicos de atendimento à mulher. No caso de ser vítima de estupro, correr risco de vida, estar grávida de feto anencéfalo, a mulher tem direito ao aborto por isso deve receber assistência adequada. Queremos fazer com que os profissionais recebam qualificação para que não criminalizem mais as mulheres, independente da opinião individual que tenham. Precisamos romper com essa lógica. O Estado tem que garantir que a mulher receba atendimento adequado, se não ela terá que sentir um duplo sofrimento ao abortar. Já temos mais de 8.300 mil assinaturas apoiando o projeto.

Que outros projetos seu mandato tem voltados para as mulheres?

O espaço coruja, que é creche estendida ao horário noturno. Não é um projeto só para as mulheres é para as famílias, mas sabemos que a responsabilidade com os filhos ainda recai quase exclusivamente sobre a mulher no Brasil. Avançamos também no debate sobre a visibilidade das mulheres trans, ao exigirmos o reconhecimento da identidade social de uma de nossas assessoras parlamentares na Assembleia Legislativa. Estamos fazendo um estudo para identificar as demandas e poder fazer mais pelas mulheres. O mandato está apenas começando.

 

Publicado em Notícias

Digite no Google as palavras “engenheira mulher”. Há as seguintes sugestões de pesquisa: "motivos para namorar uma engenheira"; "engenheira civil feminina", "engenheiras famosas", "engenheira civil como se vestir", "como uma engenheira deve se vestir". Agora, se digitarmos apenas a palavra "engenheiro", iremos verificar as seguintes menções "tipos de engenheiro"; "profissão engenheiro", "engenheiro salário", "engenheiro o que faz". E qual a diferença entre uma pesquisa na internet e a realidade? Nenhuma. Uma mulher engenheira é questionada pela sua aparência e pelo seu gênero, e não por sua competência e capacidade técnica. Pensamento este fruto da sociedade machista que questiona, invisibiliza, objetifica e inferioriza a mulher e o seu trabalho.

Por Simone Baía

A engenharia é uma área predominantemente formada por homens. De acordo com dados do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), os homens registrados representam pouco mais de 86% e as mulheres cerca de 14% apenas. Na seleção de uma vaga de emprego, é comum que mulheres sejam rejeitadas pelo mercado de trabalho, pois têm a sua competência questionada a todo o momento e, geralmente, a cultura organizacional das empresas é masculina. Uma mulher engenheira chefe, presidente ou coordenadora garante representatividade e também possibilita que outras mulheres avancem. A engenharia pode, concretamente, melhorar a vida das mulheres trabalhadoras, com obras de saneamento, tratamento de água, construção de creches, escolas, produção de alimentos seguros, entre outros.

Nós, engenheiras, queremos ser percebidas por nossa capacidade técnica e competência, e não por nossos corpos. E os homens nessa luta precisam ser nossos aliados. Afinal, quando uma mulher avança nenhum homem retrocede. Em uma reunião de trabalho ou política, quantas mulheres são ouvidas? Vocês percebem quantas mulheres existem no espaço? Quantas mulheres têm seu local de fala respeitado?

Esse quadro de machismo é também refletido na conjuntura nacional com o golpe sofrido pela primeira presidenta mulher do Brasil, Dilma Rousseff. Passado o golpe, uma das primeiras medidas foi a ocupação dos espaços de poder majoritariamente por homens e o fim do status de Ministério da Secretaria Especial de Políticas para Mulheres, vinculando ao Ministério da Justiça e da Cidadania. Para agravar ainda mais o cenário, o presidente ilegítimo, Michel Temer anunciou como prioridade as reformas trabalhista e da previdência, que atingem diretamente as mulheres. Um dos pontos iguala a idade de aposentadoria entre homens e mulheres para 65 anos, ignorando a dupla jornada de trabalho da mulher, que pode chegar a 20 e 25 horas semanais a mais com as responsabilidades familiares e domésticas.

Por todos esses motivos, escolhemos o tema “Faça acontecer por todas nós: nem uma mulher a menos!”, para marcar o 8 de março deste ano, dialogando com o movimento internacional de mulheres. A proposta é dar visibilidade ao conceito de sororidade e fortalecer a luta pelo fim da violência contra a mulher. Afinal, o que significa sororidade? Sororidade é o apoio e o exercício de empatia entre mulheres. Não estamos sós e juntas somos mais fortes.

Culturalmente, somos estimuladas a tensionar uma rivalidade entre nós e até mesmo a reproduzir uma política de disputa. Não somos inimigas. Podemos nos apoiar reconhecendo a competência profissional de outras, acolhendo mulheres em situação de violência, indicando mulheres para vagas de emprego, construindo uma rede de apoio para mães, apoiando mulheres na ocupação dos cargos de direção política. Faça acontecer por todas nós significa interseccionar nossas lutas pelo feminismo negro, trans e indígena, e também rejeitar uma lógica simplista de meritocracia. A feminista norte-americana Angela Davis afirmou: "O tipo de feminismo que eu abraço não é um feminismo dividido. É um feminismo que busca a integração".

Precisamos de uma nova forma de fazer política, com espaço de escuta e disputa de ideias. Ouvir e acolher são exercícios necessários, em vez de somente política de reprodução da violência. Desta forma, conseguiremos avançar, reunir mulheres, formar novos quadros e politizar questões de gênero nos espaços. E você? Já perguntou a opinião de uma mulher hoje?

Simone Baía é engenheira química e diretora da mulher da Fisenge

Publicado em Notícias

O Brasil é um dos lugares mais perigosos do mundo para ser mulher. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), uma mulher é morta a cada 2 horas por um homem. Para dar destaque ao assunto, vários movimentos sociais encabeçam a campanha “Nem uma menos!”, que nasce da indignação com as frequentes mortes de mulheres no país. Na semana em que comemora-se o Dia da Mulher, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Paraíba (Crea-PB) traz à tona o debate, que não é caso de polícia, mas um problema social, cultural, de saúde, de educação e de machismo.

Presidente do Crea-PB, a agrônoma Giucélia Figueiredo acredita que suscitar a discussão em torno do tema é uma ação de cidadania e lembra que o problema deve ser combatido através de políticas públicas especificas para que a violência seja de fato coibida. “Enquanto a sociedade clama para que essas mulheres não sejam só números de uma estatística assustadora, o Governo Federal, sob uma perspectiva policialesca, tira da Secretaria de Políticas Para Mulheres o status de ministério da pasta, agora subordinada ao Ministério da Justiça. Enquanto isso, os discursos misóginos de parlamentares e políticos conservadores avançaram em todo o país. Isso se confronta com a necessidade de enxergar as políticas para as mulheres de maneira ampla”, alerta Giucélia.

Na Paraíba, a realidade é assustadora. Segundo dados do Mapa da Violência 2015 – Homicídios de Mulheres, o número de violência contra a mulher cresceu 260% no estado entre 2003 e 2013, pulando de 35 para até 140 casos. A esse crime dá-se o nome de feminicídio, termo que passou a ser reconhecido principalmente após a sanção da lei que o tornou uma qualificadora do homicídio, mas ainda é pouco discutido. “Em parceria com a Fisenge [Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros], levantamos esse debate como uma forma de lembrar, neste 8 de março, que as mulheres conquistaram muitos avanços, mas que o direito fundamental, que é a vida, ainda precisa ser assegurado, e é papel da sociedade cobrar do Poder Público políticas que contemplem essa questão, acima de tudo, social”, explica a presidente do Crea-PB.

Giucélia Figueiredo lembra que a lógica patriarcal de que “briga de marido e mulher não se mete a colher” mantém a violência no campo privado, como se eximisse o Estado e a sociedade de sua responsabilidade, mas afirma: a comoção e a sensação de impunidade a cada mulher violentada e morta precisam ser direcionadas para ações que deem sentido à palavra de ordem “Nem uma a Menos”.

Mulheres na Engenharia

Primeira mulher a presidir o Crea da Paraíba, Giucélia, apesar dos desafios, vê com otimismo as transformações alcançadas na sociedade, especialmente na área da Engenharia, vista como predominantemente masculina até então. Ela ressalta que, além de ter aumentado o número de estudantes do sexo feminino nos cursos da área tecnológica, também cresceu o número de mulheres nos espaços de debate e de decisão.

Embora a participação masculina ainda seja muito superior à feminina no setor, esta diferença está cada vez menor. Segundo dados do Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo, as mulheres continuam minoria na engenharia, mas em 2013 chegaram a 19% dos empregados formais. São 17.875 no total de 92.478. Em 2003, eram 7.829 e representavam 15%. Outro dado significante é a redução da disparidade por gênero. Em 2003, as engenheiras tinham salários que representavam em média 75% dos pagos aos seus colegas do sexo masculino. Em 2013, já obtinham remuneração equivalente a 81%.

A Paraíba acompanha a média nacional, com cerca de 20% dos profissionais ativos no Crea-PB sendo mulheres. Dos 12.419 registrados no Conselho Profissional, 2.538 são mulheres. A área de engenharia civil apresentou o maior aumento nos últimos 10 anos, de 166 engenheiras registradas em 2007 para 1070 profissionais ativas em 2017, um incremento de 85%.

Para a presidente do Crea-PB, os números são animadores e revelam que ocorre hoje uma transformação da Engenharia no Brasil. “Com essas mudanças, surgem espaços que passam a refletir o papel da mulher nas nossas profissões e, principalmente, o papel da mulher engenheira na sociedade”, afirma.

Giucélia Figueiredo cita os Coletivos de Mulheres do Sindicato dos Engenheiros da Paraíba (Senge-PB) e da Fisenge como expoentes nesse processo. “São espaços democráticos fundamentais, onde as engenheiras debatem e vão à luta por uma série questões que nos envolvem enquanto profissionais e cidadãs. O Senge-PB e a Fisenge têm andado de mãos dadas de forma atuante e comprometida. É preciso ter a compreensão de que nós, mulheres, precisamos assumir esse papel ativo para construirmos a sociedade que queremos”, conclui.

Fonte: Crea-PB

Publicado em Notícias

Quando criança, Sonia Guimarães era a segunda melhor aluna da sala e adorava matemática. No primário, ficou entre as cinco melhores da classe. Estudava de tarde, mas quem se destacava tinha a chance de ir para a turma da manhã. Sonia não foi porque foi preterida pela filha de uma das funcionárias, que havia pleiteado a vaga. “Quem tiraram? A pretinha. Eu me senti depreciada por isso”, lembra ela. A hoje professora de Física no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), uma das instituições de ensino mais conceituadas e concorridas do país, lembra que essa não foi a única passagem de racismo que a marcou em sua vida. Mas, apesar da torcida contra, conseguiu o primeiro título de doutorado em física concedido a uma mulher negra brasileira.

Ela, porém, sequer sabia dessa deferência. “Descobri por acaso quando o site Black Women of Brazil fez uma matéria. Nem meus chefes no ITA sabem disso! Alguns alunos descobriram porque eles pesquisam sobre mim na internet”. Estudante de escola pública durante toda a vida, Sonia trabalhava na adolescência e todo seu dinheiro era destinado a pagar o cursinho, já que faziaensino médio técnico. Sonhava em ser engenheira civil. Para realizar seu sonho prestou Mapofei, um vestibular que na década de 1970 dava vagas para as grandes faculdades de engenharia deSão Paulo. Mas foi orientada por um professor a colocar como opções no vestibular os cursos que tivessem menor procura. Sua escolha foi para física. “No segundo ano [do curso], eu prestei vestibular para engenharia civil, mas comecei a ter aula de física que estuda materiais sólidos, e me apaixonei”.

A saga de Sonia faz um paralelo com a de Katherine Johnson, Mary Jackson e Dorothy Vaughanque faziam parte da equipe de “computadores humanos” da Nasa, na época em que negros não podiam nem mesmo usar os mesmo banheiros que funcionários brancos na Agência. Elas são as protagonistas do filme Estrelas Além do Tempo. A presença de mulheres negras na ciência também é mínima no Brasil. Embora o país tenha 52% de negros, somente em 2013 soube-se quantos deles estavam na área científica.

Foi nesse ano que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) solicitou que os pesquisadores brasileiros informassem raça e cor em seus lattes. Um estudo feito em 2015 tendo como base essas informações, mostra que entre 91.103 bolsistas da instituição cursando pós-graduação, seja em formato de Mestrado, Doutorado ou Iniciação Científica, as mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000, ou 5,5%.

Essa pouca diversidade colabora para que a ciência produzida no Brasil seja descolada da necessidade da população, avalia Anna Maria Canavarro Benite, presidenta da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros (ABPN). Embora o país seja um dos maiores produtores de artigos científicos, ocupando o 13º lugar no ranking elaborado pela empresa Thomson Reuters, essa produção é descolada da necessidade da população. “O Brasil produz muito. Mas, por exemplo, agora o país vive um surto de febre amarela e essas pesquisas não ajudam a vida prática da sociedade”, afirma.

Anita Canavarro, como é conhecida, também é professora de química da Universidade Federal de Goiás (UFG) e dedica sua carreira a “descolonizar” o ensino da disciplina nas escolas públicas. A professora chama de “descolonização” a necessidade de colocar o negro como sujeito produtor da tecnologia. “Nós temos traços de apagamento e invisibilização. Vários artefatos tecnológicos utilizados no Brasil são datados desde antes da chegada do colonizador e até hoje não são creditados”, explica Anita. A indústria de mineração, por exemplo, utiliza postos de destilação que tem arquitetura semelhante à de povos africanos que faziam fundição de ferro, explica ela. “Ao mesmo tempo, a primeira Constituição do Brasil proibia negros de irem à escola alegando que eles possuíam moléstias contagiosas”.

Antes de ser cientista, a presidenta ABPN era uma moradora da Baixada Fluminense que se aproximou das ciências exatas porque percebeu que os cursos ligados à licenciatura eram menos disputados na Universidade Federal do Rio Janeiro (UFRJ), quando iniciou sua graduação em 2001. "Uma vez no curso, eu me apaixonei pelos processos de transformação da matéria. Hoje minha leitura de mundo é muito ligada a isso".

Ao contrário de Anita e Sonia, Katemari Rosa sempre foi apaixonada pela ciência. “Eu escolhi fazer física porque eu quis descobrir o céu, quando criança me apaixonei por astronomia”, diz ela. A maioria dos astrônomos são formados em física e por isso seguiu o curso, explica.

Gaúcha, Katemari estudou no atual Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), ligado àUniversidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Foi no campus que ela pôde frequentar o observatório e o planetário da universidade.

Quando ela olha para trás, se lembra de casos de racismo que sofreu, mas que na época não identificava como tal, como quando a funcionária da escola que cuidava de estágios a indicou para uma vaga de assistente de dentista. Além de atender telefone e fazer coisas específicas da função, foi orientada a lavar a louça do consultório. “A funcionária jamais indicaria uma daquelas meninas brancas para essa vaga”.

O maior choque que teve, porém, foi quando se mudou para Salvador para fazer o Mestrado. A cidade com mais negros no Brasil tinha uma universidade pública que não espelhava isso, já que no Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA) havia apenas um professor negro. "A gente tem dificuldade de atribuir ao racismo porque isso significa que existem pessoas pensando que a gente é menos gente. Trata-se de um mecanismo de defesa, como dizia Derrick Bell”, reflete ela, citando o primeiro professor negro de Direito em Harvard nos anos 1970. “É difícil de explicar e só quem sente, sabe. A gente tem essas sensações, mesmo que não atribua ao racismo, na experiência cotidiana”.

A física atualmente trabalha na Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), onde concentra seus esforços para formar novos professores que entendam a necessidade de inspirar jovens a seguir no caminho das ciências. “Uma das minhas alunas fez um projeto para examinar livros didáticos de física do ensino médio. Nas imagens analisadas, as pessoas negras só apareciam na parte de mecânica, velocistas africanos ou jogadores de futebol”, relata. As negras estavam empurrando carrinho de bebê. “E a gente pensa que física não tem nada a ver mas está cheio de imagens que reforçam o papel da mulher, o papel do negro. Nós aprendemos desde cedo onde são nossos lugares”.

A química Denise Fungaro, por outro lado, confessa que não se atentava para a inexistência de professores e colegas negros quando entrou na Universidade de São Paulo (USP) em 1983. “Eu não sofria discriminação. Nunca tive professores negros, mas como a avaliação é feita através de provas não tem como a pessoa te discriminar”, afirma. “Hoje entendo que eu era exceção, a única aluna negra no curso em um país onde 52% da população é negra”. Ela acabou de ser agraciada com o prêmio Kurt Politzer, concedido pela Associação Brasileira de Indústria Química (ABIQUIM), mas seu desejo é servir de inspiração para sua filha que tem três anos. “Eu quero que ela saiba que pode ser bem-sucedida em outras áreas que não sejam exclusivamente artísticas ou esportivas”.

Enquanto isso, Sonia Guimarães pensa em se aposentar do ITA, mas não sabe quando. Na conversa com o EL PAÍS, lembra dos tempos em que trabalhou na Itália e em que estudou na Inglaterra, enquanto dá entrevistas para meninas do ensino médio, através do projeto “Elas nas Exatas”. Tornou-se também voluntária ensinando inglês para que outros jovens negros realizem seus sonhos de uma formação no exterior

Fonte: Beatriz Sanz/ El Pais

Publicado em Notícias

Larissa Rodrigues Mendes Silva tem 19 anos e mora no Capão Redondo, na periferia da zona sul de São Paulo. Desde os 10 anos, ela sonha em construir prédios importantes na cidade. A jovem estudou em escola pública, conseguiu 100% de bolsa de estudos em um cursinho renomado e conquistou uma vaga no curso de Engenharia na Universidade de São Paulo (USP).

Enfrentando barreiras no dia a dia, a universitária conta que não é fácil ser mulher, negra e da periferia numa faculdade em que 82% dos estudantes são homens e 59% pertencem à classe A, como aponta pesquisa da própria USP.

"A gente sempre acha que não isso é para a gente, por mais que meus pais estimulassem a fazer universidade pública. Mas mesmo assim, você aquilo como algo tão distante que acha nunca vai acontecer", conta a jovem, em entrevista à repórter Vanessa Nakasato, da TVT.

A estudante afirma que, como sempre estudou em escola pública, sofreu com a falta de professores e excesso de aulas vagas. Entretanto, entrou para um cursinho renomado. Acordava às 4h para chegar as 7h. Além da longa viagem, também sofreu com o preconceito dentro da sala de aula.

"Eu tive crise ansiedade, com vontade de desistir, porque eu nunca tinha visto isso. Eu estava numa sala que tinha 200 alunos e era eu e mais um menino negro. Eu sempre ouvi alguns comentários do tipo ‘você tem não medo que algum bicho entre no seu cabelo?’, ou ‘você não tem cara de engenheira, tem cara de humanas’. Teve até uns casos mais extremos em que um rapaz estava conversando com outro e falou: ‘quando eu vejo um preto com dread tenho vontade de atropelar’. Então, foi muito difícil para mim", relata.

Se conseguir chegar ao fim do curso, Larissa será uma das 10 alunas negras a se formar em Engenharia na USP, em 124 anos. A falta de cotas na universidade faz com que ela se sinta sozinha. "Os problemas das questões sociais na USP existem muito ainda. Como ela não tem cotas, quase não têm negros aqui dentro. As únicas pessoas negras que tem são seguranças, as moças da faxina, porque os alunos mesmo quase não têm. Até mesmo o curso de Letras, que é considerado o mais inclusivo, não chega a ter mais de quatro negros na sala."

A jovem contesta o argumento da meritocracia sobre a 'falta de esforço para que negros conquistem as vagas na USP'. "A grande maioria não tem noção da realidade do próximo e quando reivindicamos alguma coisa, eles falam que é 'mimimi' ou 'falta de esforço', como se fosse uma questão de esforço e não de oportunidade."

Fonte: Rede Brasil Atual

Publicado em Notícias

Na semana passada, dois estudos colocaram em evidência algumas das barreiras que impedem o aproveitamento do potencial das mulheres na ciência. O primeiro deles, publicado na revista Nature, se refere à presença feminina como avaliadoras dos trabalhos de seus colegas. Essa avaliação é uma das bases do sistema científico e acadêmico, e permite que as revistas científicas analisem a qualidade dos artigos submetidos para publicação. Além disso, trata-se de um caminho para que os avaliadores melhorem em sua própria área de conhecimento e fortaleçam vínculos com outros pesquisadores.

Uma análise da União Americana de Geofísica (AGU, na sigla em inglês) indica que mulheres de todas as idades têm menos probabilidades de participar desse processo. O estudo mostra que, entre 2012 e 2015, a presença feminina entre os revisores foi de 20%. Trata-se de uma porcentagem bem inferior aos 27% de mulheres que conseguem ter aceitos artigos em que aparecem como primeiras autoras, e abaixo dos 28% de membros femininos da AGU. A presença de mulheres varia com a idade. Entre aquelas na casa dos 20 anos, elas representam 45%. Em contraste, os autores da análise, Jory Lerback e Brooks Hanson, mostram que a porcentagem de artigos aprovados para publicação apresentados por mulheres é ligeiramente maior que a de homens (61% a 57%).

Sobre os motivos para essa menor representação, os autores mencionam como primeira causa o fato de as mulheres receberem menos convites para avaliar artigos do que os homens. Além disso, as mulheres também recusam esses convites com mais frequência.

Os autores apresentam duas possíveis interpretações para esses resultados. A primeira é que as mulheres que escrevem artigos sofram uma discriminação às avessas. A outra, talvez mais plausível, é que elas preparem melhor o envio de seus trabalhos já esperando encontrar mais dificuldades. Essa hipótese coincide com os resultados de outros estudos que indicam que as pessoas que esperam mais obstáculos dedicam mais esforço à preparação e assumem menos riscos. Isso explicaria também, pelo menos em parte, por que as mulheres enviam menos artigos para publicação do que os homens. “Um processo de estudo duplo-cego poderia lançar mais luz sobre esses fatores”, propõem os autores do artigo na Nature.

Nesse sentido, estudos como o que foi publicado na PNAS por um grupo liderado por Corinne A. Moss-Racusin, psicóloga do Skidmore College (Estados Unidos), sugerem que os professores universitários, independentemente de seu gênero, avaliam de maneira mais favorável uma candidatura para diretor de laboratório se ela vem acompanhada de um nome masculino. Outras análises semelhantes observaram como candidaturas idênticas para postos fixos na universidade têm mais possibilidades de sucesso se o suposto aspirante for homem. Esses trabalhos observam ainda que essas inclinações também atingem indivíduos que valorizam a igualdade e se consideram objetivos.

A complexidade do problema das inclinações também foi abordada em um artigo publicado na mesma revista em 2015. Apesar de haver uma grande quantidade de dados que refletem a desvantagem das mulheres nas carreiras ligadas à ciência e à engenharia, e de isso poder estar relacionado com os estereótipos de gênero, esses dados não são avaliados igualmente dependendo de quem leia sobre eles. Naquele artigo, foi observado que os homens – em particular aqueles em posições de poder dentro do mundo acadêmico – eram reticentes em aceitar o valor dos dados apresentados nesse tipo de estudo. Essa percepção, em um campo dominado pelos homens, dificulta que as inclinações sejam reconhecidas e comecem a ser combatidas.

Um segundo artigo publicado na semana passada traz mais informações sobre as possíveis causas da sub-representação feminina na ciência e na engenharia. Em um estudo apresentado na revista Science, foi perguntado a meninos e meninas se acreditavam que uma pessoa descrita para eles como especialmente inteligente era de seu sexo ou do oposto. Quando as crianças tinham 5 anos, não se observavam diferenças. Mas a partir dos 6 ou 7 anos, a probabilidade de que meninas considerem a pessoa brilhante como sendo de seu sexo cai.

Em outro experimento do mesmo estudo, os autores viram que as meninas mais velhas, a partir dos 6 anos, têm menos interesse em jogos que, segundo a descrição, teriam sido planejados para crianças muito inteligentes. No entanto, o interesse não variava entre os gêneros quando o jogo era apresentado como dirigido a crianças muito persistentes. Os responsáveis pelo estudo consideram que essas ideias sobre gênero e inteligência, que aparecem em uma fase inicial da infância, podem afastar as meninas das carreiras em ciência e engenharia. Um dado interessante é que tanto meninos como meninas reconhecem que elas tiram melhores notas, o que sugere que não associam essas notas com brilhantismo. Agora, os autores querem entender as origens dessas diferenças de percepção.

Fonte: El Pais

Publicado em Notícias
Pagina 1 de 12